Vencedor do Prêmio Sesc 2006

Hoje está um dia morto (André de Leones, Record, 2006)

Hoje está um dia morto (André de Leones, Record, 2006)

O vencedor na categoria romance da edição 2005/2006 do Prêmio Sesc de Literatura foi Hoje está um dia morto, de André de Leones.

Impressões

A profusão de referências musicais (sobretudo do pop e do rock), cinematográficas e bíblicas compõe uma narrativa sobre a qual quase sempre paira um imutável céu nublado de “dia morto”. O texto, porém, é vivo, desafiador e mesmo desconcertante com suas múltiplas alusões pornográficas. A recorrência da imagética pornô reforça a ideia de que, para os personagens adolescentes, o sexo é menos do que fonte de prazer, é praticamente a única distração possível em uma cidade sem nada a oferecer.

A técnica de cineasta é aplicada para construir quadros e diálogos simultâneos, bem como para descrever cenários e personagens (“Início de tarde technicolor iluminando a debandada escolar” p. 71). As alusões culturais servem como ganchos descritivos de um autor-narrador (revelado ao final do texto) com fortes percepções sinestésicas. 

Em um universo de personagens sem perspectiva, a força do texto é o próprio texto: vigoroso  e provocador, que leva o leitor a questionar seus alinhamentos morais e preferências estéticas. Um livro forte, que incomoda, não deixa indiferente e, por isso, vale a leitura.

Enredo, narrativa e estrutura da obra

Fabiana e Jean são adolescentes que moram em uma cidade pequena e estão no último ano escolar. São namorados e a maior parte do livro descreve suas relações sexuais. Entre as ações secundárias que se desenrolam, estão a conversa de Jean com a empregada Morena e a entrevista do rapaz com a madre diretora da escola, que ocorre simultaneamente à conversa de Fabiana com a bibliotecária do colégio. Os diálogos com personagens menores são a parte mais objetiva da narrativa, em que se demonstram como os protagonistas formulam suas ambições e, sobretudo, sua desmotivadação em relação a si mesmos e ao futuro.

Há também cenas descritivas dos sonhos delirantes de Jean, que sofria do problema de não se lembrar deles ao acordar, mas que mantinha, na vigília, a angústia das revelações oníricas. O pano de fundo dos dramas de Jean são suas relações familiares: a história começa com a viagem de seus pais para tentarem resgatar o casamento e é nesse contexto de casa vazia que os adolescentes passam a maior parte da trama sozinhos.

Jean possui um paradoxal niilismo crente, pois, ao mesmo tempo que não possui nenhuma esperança, tem certeza da existência de Deus e, justamente por possuir essa certeza, deprime-se com ela. Fabiana preocupa-se em compreender o namorado, mas seu diálogo é praticamente inexistente ou vazio de significado; a relação é pautada pelo sexo e por uma longínqua compreensão mútua não expressa em palavras.

Quanto à estrutura da obra, a abertura indica um autor-narrador (“Alanis não quis ler nada disto que escrevi.”, p. 10) logo a seguir absorvido pelos capítulos, de modo que o texto é lido como se fosse o fluxo de pensamentos de Jean, o protagonista. A estratégia de Leones foi reapresentar o narrador esquecido ao final da obra, transformando-o também em personagem, o que trouxe à história uma perspectiva mais ampla do que aquela com que havia sido narrada. Essa técnica realça as limitações do ato de observar e narrar, lembrando ao leitor que ele possui liberdade para interpretar a seu modo os personagens, os quais podem ser pessoas mais complexas do que ele consegue apreender.

Influências do autor

As influências expressas nesta obra transcendem a literatura e perpassam o cinema, a música e a religião. A preocupação em demonstrar ângulos e iluminação aproximam o livro de um roteiro cinematográfico; quanto à música, Pear Jam e Nirvana são referências recorrentes e, entre as várias alusões bíblicas, ao autor-narrador cabe um capítulo intitulado “O verdadeiro livro de Daniel”.

Uma obra construída a partir de várias fontes e que demonstra a o espírito mal contido de jovens sem perspectiva e esquecidos em uma cidade desconhecida.

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